quinta-feira, 24 de junho de 2010

JURI POPULAR

Depois que recuperei das feridas do tiro (foram 4 meses) fui escalado para trabalhar no turno da noite na área próximo ao Regimento Malet, um quartel do exército que fica em frente a praça da Liberdade. A pé, eu o cabo havíamos patrulhado a área leste de nosso setor e nos dirigíamos calmamente para a àrea da praça. Ao chegarmos na esquina da praça, avistamos dois homens parados encostados em uma motocicleta estacionada no cordão da calçada da praça. Assim que os dois homens perceberam a aproximação dos policiais, tomaram atitudes que costumamos chamar de "suspeita". desencostaram da moto, fingiam conversar e trocavam olhares desconfiados. Diante destas atitudes decidimos abordá-los. Um dos homens, o mais baixo, tinha algo nas mãos que não podiámos ver, além de uma mochila, tipo "saco" com cordas de usar em diagonal sobre as costas, o outro, mais alto e magro, não tinha nada nas mãos e nem mochila. Traçamos um plano de abordagem, o cabo afastou-se de mim, em diagonal para impedir uma fuga para o interior da praça e eu, em linha reta, ia em direção aos dois. ao nos aproximar-mos uns dez metros, ambos os homens começaram uma suposta fuga, caminhando lado a lado como se não estivessem nos vistos. Coloquei a mão sobre o revólver no coldre, desapresilhei-o sem sacá-lo, dei a voz de abordagem ao dois que estavam de costas para mim e de lado para o cabo: "Parados, é a polícia..." Três disparos vieram na minha direção. O homem mais baixo, ao ouvir a abordagem, virou-se e em sua mão direita tinha uma pistola em punho. Um dos tiros passou tão perto de minha orelha que pude ouvir um forte estalo. A reação foi imediata. Sacamos nossas armas num reflexo instintivo e disparamos, eu três vezes, o cabo mais três. O atirador andou dois passos caiu de bruços e ficou com a arma sob o corpo, já o outro levou as mãos à cabeça e caminhou em direção ao cabo, onde foi rendido ao solo e algemado. Olhei o corpo daquele homem caído por uns cinco segundos e fui em direção a ele sem perdê-lo da mira do meu revólver. Cheguei bem perto, achei que estava morto, pois, sangrava na cabeça, procurei a pistola dele e não enxerguei, seu rosto estava de frente para o chão de paralelepípedo, sem tirá-lo da mira, o cutuquei com a ponta do meu coturno, foi como jogar água em gato, o homem virou-se numa velocidade espantosa e efetuou mais um disparo em minha direção, errou, pressionei o gatilho do revolver e estava trancado. Corri para dentro de um pátio e de lá pude ver o homem se levantar e, cambaleando tentava firmar a perna esquerda no chão, porém, um dos disparos que efetuamos havia partido o osso de sua canela e aquilo ficava balançando e dobrando contra o chão. Olhei para meu revolver e tentei abrir o tambor, não abria, cheguei a batê-lo contra uma parede mas não adiantou. Fiz uma volta enorme para chegar até onde estava o cabo com o outro dominado. Não teve outro jeito, como o cabo já tinha algemado o cara, troquei de arma com ele e fui em direção ao atirador. Ele não tinha conseguido andar cinco metros por causa da perna quebrada. Me aproximei, esqueirando-me por postes e árvores, pude ver seus olhos, estavam vermelhos e irradiavam ódio, apontava a pistola em minha direção e forçava o dedo contra o gatilho mas nada saía. Pude ver então, que a pistola estava aberta o que indicava que não havia mais munição. Cheguei bem perto dele, e quando se distraiu com um vulto na esquina, joquei-me contra ele derrubando-lhe. Quando estava sobre ele, tirando-lhe a pistola da sua mão, apareceram três militares do exército, um de pistola em punho e outros dois com fuzis. Senti um alívio e pude me concentrar mais em desarmá-lo.Assim que lhe retirei a pistola de sua mão e o algemei é que levantei a cabeça e pude ver que estava em frente ao portão lateral do Quartel do Exército. Logo chegou reforço da brigada e uma ambulância do exército para levar o ferido. Dentro da mochilinha do atirador havia um tijolo de 500 gramas de maconha. O atirador foi colocado na ambulância do exército, acompanhado de um punhado de PMs, e conduzido ao Hospital. Decidimos levar o outro direto para a delegacia, e quando o levantamos do chão ele mencionou que também estaria ferido foi só aí que vimos uma grande mancha de sangue em suas costas. Um dos disparos havia entrado pelo abdomem e saído pelas costas, deixando um buraco de saída do tamanho de uma bola de ping-pong. Foi conduzido de vitura ao Hospital mais próximo e morreu minutos depois. O atirador era um foragido da justiça de 25 anos, condenado por estupro e acabou novamente condenado por tentativa de homicídio contra os dois policiais, tráfico de drogas e porte ilegal de arma mas o outro era só um jovem de 14 anos envolvido com as pessoas erradas na hora errada. Essa ocorrência nos levou a julgamento por juri popular. Da data do fato até nosso julgamento, se passaram exatos um ano, foi na época um dos piores momentos de minha vida. A imagem daquele guri percorria meus sonhos e me colocou em depressão e pela primeira vez na minha carreira eu fui a nocaute psicológico. Fui encaminhado e tratado por psicólogos e psiquiátras durante um ano antes de voltar a trabalhar e por mais três anos como medida preventiva. Quanto ao julgamento, fomos absolvidos baseado na tese do "estrito cumprimento do dever legal" . E o revólver, pura falta de atenção, a vareta do tambor estava frouxa e com isso o gatilho tranca e tambor não abre. Provavelmente com os disparos que dei ela afrouxou e não percebi. Essa nunca mais pega. PS - no hospital, os médicos encontraram nas cuecas do menino morto, uma piteira e várias trouxinhas de maconha

4 comentários:

  1. Show de bola Paim!!!! Parabéns pelo exelente blog

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  2. Bha cara, que legal essa tua idéia. Estou lendo direto e gostando muito. Abraços

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  3. Meu filho,sei do teu amor,dedicação e orgulho de ser Policial Militar.
    Adorei o teu blog,embora essas ocorrências me fazem lembrar das preocupações que passei.e ainda passo.
    Mas Deus sempre esteve contigo e continuará a teu lado.
    Tenho um enorme orgulho de ser tua mãe e carrego no meu coração uma magoazinha por,na maioria das vezes, a Instituição não ter te dado o devido reconhecimento pelo teu trabalho.
    Sou suspeita em dizer, que Policial como tu não se encontra em qualquer esquina da vida.
    Parabéns meu valentão!!!

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  4. Nossa, essa tua história daria um filme de ação.

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