Nesses meus 20 anos de polícia, muitas coisas se passaram diante de meus olhos. As Crônicas que posto aqui são na verdade um apanhado das ocorrências policiais mais empolgantes. O tempo, os detalhes, os sons e outras coisa que não consigo escrever fica a critério da imaginação de cada um dos leitores. Na verdade uma ocorrência policial, quando atinge o seu ápice, e é daí que começo a contar, não dura mais do que cinco minutos, e é nesse ponto que quero que todos vocês se apeguem, pois, ao final de cada leitura imaginem toda a ação detalhada em palavras e após coloquem-se em cena adicionando a isto, a obrigação de fazer, as frações de segundos para pensar e agir e o medo que incendeia seu corpo ao imaginar que tudo pode acabar alí. Boa leitura
Em 1995 eu já havia voltado para o quartel do 1º RPMon em Santa Maria no RS. Estava classificado no 4º Esquadrão que atendia todos os bairros que circundavam o centro da cidade, porém, fui emprestado ao Pelotão de Choque do Regimento ( naquela época para ser do Choque bastava ser grande, podia ser o maior jucão dentro da polícia, mas se tu fosse grande tava dentro e eu tinha 1.91m e fui). Era o meu segundo serviço no choque, trabalhávamos em um grupo de oito policiais, um sargento, um cabo e seis soldados em um turno de 24 horas. Assumíamos o serviço às 07:00Hs de um dia e largávamos no mesmo horário do outro dia. Ficávamos aquartelados e saíamos para patrulhar uma vez durante o dia no horário bancário na área central e depois na madrugada para fazer patrulhas nas vilas e foi numa dessas madrugadas que passei um dos maiores dramas dentro de minha carreira. Eram 06:00Hs da manhã e estávamos chegando no quartel, na verdade já estávamos dentro do quartel manobrando a viatura, uma Pick Up Gm C-10 com capota traseira e bancos laterais na vertical, o Sargento e motorista ficavam na cabine e o resto do efetivo na carroceria, quando ouvimos pelo rádio um chamado de apoio de uma viatura, no bairro Camobí, que se deparara com um indvíduo, que acabara de assaltar um casal e disparou alguns tiros contra a guarnição. Levamos exatos seis minutos até o local. A guarnição que havia sofrido os disparos não estava ferida e nos informou as características e a direção que o assaltante e atirador havia tomado. Beco do Beijo, era para onde tinha ido o meliante em fuga. Quando a nossa viatura ingressou no beco, eu ví o suspeito correndo e se escondendo atrás de uma casa, batí forte com o pé três vezes no assoalho da viatura, era o sinal para o motorista parar, ele parou e desembarcamos, corremos em direção a casa para efutuar um cerco, porém, eu tropecei em um fio de arame e caí, todos passaram por mim e quando estava me levantando, o meliante acuado, sai de trás da casa e atirou contra os colegas que estavam à minha frente e, então, eu sentí um calor enorme na altura da virília direita e percebí que fora atingido, todos os outros haviam se jogado ao chão e eu, embora atingido, não sentia dor e enquadrei o bandido mas ao tentar manter equilíbrio perdi a sensibilidade da perna e caí e pela segunda vez na minha carreira eu tive medo. Pensei que ia morrer, não conseguia associar o ato de ser atingido por um tiro com qualquer outra coisa a não ser com a morte. Deitado no chão, sozinho, desafivelei minha cinta e abri minhas calças. A minha virília direita estava enorme, parecia que tinham colocado uma bola de tenis dentro dela, imaginei minha femural rompida e comecei compulsivamente a contar os segundos, eu ia morrer alí. Pedi a Deus só mais uma chance e foi aí que dois colegas surgiram e me carregaram. Me colocaram no deitado banco traseiro de uma vitura Fiat Prêmio, tive que ir com as pernas pro lado de fora da janela. No Hospital Universitário eu cheguei desacordado pois, perdi muito sangue e logo em seguida fui acordado por um médico que comunicou o quadro médico. A bala, calibre 32,entrou pelo púbis, cinco dedos abaixo do umbigo e dois abaixo do colete a prova de balas,da esquerda para a direita, rompeu uma série de vasos sanguíneos sem muita importância, passou à milímetros da bexiga e se alojou na virília direita ao lado da artéria Femural, porém, sem rompê-la. E está alí até hoje. Bem, o bandidão que não era tão bandidão assim, tinha 14 anos, foi preso por volta das 10:00Hs da mesma manhã, depois que um Regimento inteiro cercou o famigerado Beco do Beijo. O "gurizinho" havia invadido a casa de um idoso, o ameaçado, tirado a roupa e as escondido dentro das panelas do vovô, o revolver dentro de um fogão a lenha e se deitado na cama como se nada tivesse acontecido. Foi acordado com uma calibre 12 na fuça, pois, o vovô que ficara assustado na frente da casa tomando um chimarrão fez um sinal muito discreto com os olhos para um policial que passava. Foi encaminhado para a antiga FEBEM e assim vive até hoje, 2 anos preso dez dias solto. Eu fiquei muito tempo sem trabalhar nas ruas mas me recuprei bem. Na próxima crônica quem leva a pior são os os bandidos...
Nossa, não sabia q tinha levado tiro. Coisa séria hein...
ResponderExcluirNeste dia terrível,o teu pai e eu estávamos na praia,em Cidreira,quando tua irmã ligou aos prantos dando a notícia.Fizemos o trajeto de Cidrrira a Santa Maria em três horas. O teu pai colocou o pé no acelerador e naquela hora nós queríamos que o carro tivesse asas para voar. Quando chegamos ao hospital,o meu coração batia tanto que parecia que ia sair "pela boca",minhas pernas tremiam que quase não podia caminhar.Quando recebemos a notícia que tu estavas bem, teu pai e eu sentamos e abraçados choramos compulsivamente e juntos agradecemos a Deus pela graça alcançada. Te amo muito meu herói.
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