terça-feira, 6 de julho de 2010

"ESPERO QUE ESTEJA BEM"

A vida policial realmente não é fácil e alguns de vocês devem estar pensando que eu só vivi tragédias, porém, já estamos em 1999 (na cronologia blog é claro) e nestes nove anos que se passaram eu atendi milhares de outras ocorrências e todas com suas peculiaridades e não menos importantes para suas vítimas. Já começava a aprender a lidar com a razão e menos como coração, pois, a emoção faz com que o policial às vezes tome medidas erradas, como aconteceu, por exemplo, comigo em Júlio de Castilhos onde ao chegar para atender uma ocorrência de violência doméstica, deparei-me com uma mulher com o rosto completamente desfigurado por consequência dos socos e chutes que levou do marido. Tomado pela emoção, usei de toda minha força e raiva, e não foi pouca, para prender aquele marido desumano – consequência: dias depois, influenciada pelo marido “arrependido”, a mulher nos denunciou por violência contra ela e o marido, relatando com frieza que todas as lesãoes em seu rosto fora provocado pela violência dos policiais e que nós os havíamos agredido somente porque eles bebiam em via pública. Aquilo me revoltou de uma forma que foi difícil tirar a imagem daquela mulher da minha cabeça por muitos anos. A revolta só não foi maior porque vizinhos, que haviam testemunhado os fatos, desmentiram a versão da mulher e relataram a verdade. Hoje sinto pena dela, porque vivencio no dia a dia a situação de mulheres que são humilhadas, espancadas e ameaçadas da mesma forma que aquela foi. Espero que esteja bem.
O ano é 1999, eu e meu colega estamos parados com viatura 3037, uma GM Blazer, um luxo na época, na Praça central da cidade de Santa Maria, quando de repente um gurizinho chegou correndo junto a viatura e com o dedo indicador apontava para onde estaria um homem que acabara de cair vítima de mal súbito. Mal encostamos a viatura ao lado do corpanzil caído uma multidão de “médicos populares” nos enchiam com seus diagnósticos mas os lábios azulados do senhor, que aparentava ter 60 anos, deixava bem claro que ele estava com uma parada respiratória. Fiquei zonzo e mais nervoso do que qualquer um que estava ali, me ajoelhei ao lado do homem, mas a gritaria ao meu redor impedia que eu pensasse em algo rápido enquanto meu colega tentava inutilmente afastar os curiosos. Pedi ajuda e o colocamos deitado no banco traseiro. Saímos em alta velocidade, e me coloquei de joelhos sobre aquele homem. Com um joelho de cada lado do corpo dele, debrucei-me sobre ele e colei meu ouvido no seu coração, não ouvia nada. Pensei, “seja o que Deus quiser”, rasquei um pedaço de um saco plástico da pasta de documentos, fiz um furo no meio, coloquei sobre a boca daquele homem e iniciei uma manobra de ressuscitação e sem nem ao menos saber se estava fazendo certo ou errado alternava entre soprar pela boca dele e massagear o seu coração e, na terceira soprada ele se movimentou bruscamente, não sabia se ele havia retomado a respiração ou se fora apenas uma manobra brusca da viatura, mas de qualquer forma já estávamos no hall de entrada do Pronto Socorro e uma equipe médica já o aguardava. Desci da viatura exausto e quando olhei aquele homem sendo conduzido na maca ainda pude ver o momento em que o médico retirava da sua boca o saco plástico e colocava um respirador artificial. Depois de 20 minutos confeccionando documentos, ainda no interior do hospital, fomos procurados pela enfermeira chefe do plantão para informar que o Senhor havia sido vítima de uma parada respiratória, mas passava bem e pedia que aguardássemos mais um pouco, pois, o médico de plantão gostaria de falar conosco. Como o médico não apareceu fomos embora e, ao chegarmos ao quartel, no final do serviço, fomos informados pelo Oficial de Serviço que o médico de plantão havia ligado e informado que mesmo sem saber o que havíamos feito com aquele homem dentro da viatura, nós o havíamos salvado. Depois deste episódio procurei me especializar na área de socorrista. O homem, nós nunca mais o vimos e também não o procuramos, mas espero que o ar de um brigadiano tenha dado a ele uma sobrevida. Rezo Deus todos os dias para que sempre me coloque a frente destas pessoas e me dê a oportunidae de reparar todos os meu erros salvando vidas. Espero que esteja bem.

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